terça-feira, abril 21

No escuro... II














Começamos o dia por bater no carro de um pastor (leia-se padre)! Não há melhor forma de fazer amigos, pois não? O "cara" era um bicho enorme mas talvez por ser pastor, acreditou no nosso bom coração cristão. O Luís disse que se deveu à falta de café mas talvez fosse o medo...

Estávamos equipadérrimos. Capacete alugado, lanterna na testa, lanchinho farto, água q.b. e um corpinho pronto para a pancada. Seguindo o Elias, o nosso guia, lá nos enfiamos na boca da gruta (pequeno pormenor estas grutas que não tinham iluminação... glup!). 

Éramos apenas 3 pessoas. Ligamos a lanterna da testa e caminhando por um percurso estreito, chegamos a uma "ponte" feita de um tronco, do lado de lá uma "escada" de tronquinhos. Devo dizer que apesar do seu aspecto frágil eram bem sólidos. Nas grutas não havia escadas, plataformas ou qualquer outro tipo de estruturas. Só tronquinhos, tronco, corpo para rastejar e olhar atento para onde púnhamos os pés! 

O ambiente era inóspito e agreste. À nossa volta a escuridão era total. Uma escuridão mais escura que o escuro. Um silencio imenso, quebrado de vez enquanto uma voz ao longe ou o ruído da água do rio. As paredes de uma beleza deslumbrante só se revelavam à medida que a luz das lanternas as percorria, mergulhando em seguida no nada. Formações únicas, irreais, imponentes, mágicas e tudo com a bela idade de 600 milhões de anos! É um ambiente que tem algo de sagrado, talvez seja pelo respeito que impõe, misturado com o medo, adrenalina e emoção! Não sei...

Quando fazemos um "Blackout" (apagam-se as luzes dos capacetes) um medo miudinho apodera-se de nós. Aí a escuridão é ainda mais total. O silencio é insurdesedor. O pânico parece chegar a qualquer instante. Imaginamos tentar sair dali, quando todas as paredes se parecem iguais uma às outras... o desafio é impossível. Rezo para que nada aconteça ao guia. Todo o ambiente parece perigoso e tudo o que era belo torna-se hostil. Neste mundo somos pequenos e frágeis.

Para ajudar o nosso guia contou algumas histórias mirabolantes. Como aquela do guia que ficou sem iluminação e abandonou de mansinho o grupo, deixando-os às escuras enquanto procurava ajuda. Quando deram por falta das pessoas e entraram na caverna, o grupo estava quieto silencioso, o guia (que conhecia a gruta como as palmas das mãos) de gatas numa galeria distante, bem longe da saída. Só imagino o que terá passado pela cabeça daquela gente.

Visitamos 3 grutas e podemos dizer que foi fantástico, adoramos! Todas diferentes umas das outras. Uma pelas formações rochosas, outra pela "boca" da gruta que era enoooorme, e a outra pela quantidade de pedrugulhos. Queremos repetir esta experiência única, afinal são 300 cavernas e não sei quantas cachoeiras e trilhas por desbravar. 

No final de toda esta aventura nada como um refrescante banho de cachoeira. Como sabem o calor do rigoroso Outono é sufocante... Águas limpas, um ambiente idílico para esquecer a água gelada. No final do dia, depois do corpo todo "quebrado", melhor mesmo só o "rendario" da pousada.

Falta apenas falar um pouco da Pousada do Quirirm que significa em tupi (língua indígena) sussurro e da adorável hospitalidade da dona Marizete. A humildade da pousada era compensada pelo calor humano desta mulher. Ela fez aquilo que muitos de nós sonhamos. Saiu da mega cidade São Paulo e foi para a campo. 

Num passeio apaixonou-se pelas grutas e apartir dai toda a sua vida foi determinada por elas. Uma aventureira que durante anos dedicou-se a catalogar da grutas para que estas fossem registadas e protegidas (se não estivessem registadas os empresários explodiam-nas e o seu calcário virava cimento). 

Eu imagino-a a desbravar aqueles monstros negros, enfrentando os abismos do desconhecido, as galerias sem fim ou descendo fossos sem saber se a corda chegava ao fim. Que mulher de coragem!
 
E quanto à hospitalidade? Lembram-se da última vez que pernoitaram num local e sentiram o calor humano e atenção do dono que vos acolhia? Que contou a sua enternecedora história de vida? Que se levantaram e fizeram o pequeno almoço só para vocês às 6 da manhã? 

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